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29/06/2009

NOSSA MÚSICA NEGRA DE CADA DIA

Michael Jackson morreu! Parece que foi se encontrar com Bob Marley, James Brown, Wilson Simonal, Miriam Makeba, Billy Holiday.... entre outros e outras. 

Soube de sua morte no transporte coletivo ao ouvir a conversa de um grupo de jovens estudantes (como minha amiga Elisa Lucinda, adoro ouvir conversas em espaços públicos, e, se possível me envolver com elas). Bom, o grupo de jovens apresentava espanto por uma colega de trabalho, na casa dos cinqüenta anos, ter ficado “abalada” com a morte do ídolo.

Não me contive! Entrei na conversa e disse que também estava abalada! Perguntei se eles conheciam a história de Michel Jackson, não essas novas, da possível pedofilia e do “enbranquecimento” forçado, que a mídia nacional e internacional tanto espalhou, como sendo as principais “obras” do artista.

Disse que os meus motivos para estar abalada, poderiam ser os mesmos de sua colega de trabalho... E lá vem historias ... Contei que ainda criança e depois jovem, fui embalada pela musicalidade e dança dos Jackson Five. Minha imaginação circulou mundo com os Jacksons em desenho animado. Minhas janelas se abriram, ampliando horizontes além do convívio familiar na periferia, em Osasco, na Grande São Paulo.

Ao chegar em casa, o fato continuou martelando minha memória. Assim.... resolvi escrever! 

Lá pelos idos 1975-1980, multidões de jovens se AGITAVAM com o Soul e se EMBALAVAM com as “musicas lentas” e a voz melodiosa do “mano” Jackson. Essa era a militância, essa era a fé coletiva. Como diz Happin Hood (do Hip Hop) – fazíamos  BARULHO.  

Com isso passávamos a nos incluir em espaços além da vida periférica, dos trens lotados e dos longos trajetos entre o trabalho (iniciado precocemente), os estudos (para quem conseguia), e os dribles para garantir a sobrevivência.

Não tenho mais contato com os “manos” e “minas”, amigos daqueles tempos. Mas segundo as estatísticas, muitos morreram nas malhas da criminalidade e nos embates com a polícia (em especial os do sexo masculino), as mulheres em sua maioria tornaram-se mães muito jovens e/ou empregadas domésticas. E, é claro, uns e umas seguiram rumos não previstos, desafiados pelos esforços individuais e coletivos, como estudar, ter profissão, ingressar-se na política etc.

Para os que “viveram e sobreviveram”, e, como eu estão, na casa dos cinqüenta anos, não tenho nenhuma dúvida que a morte do POP STAR – MICHAEL JACKSON trouxe saudosismo. Como já disse, essa arte cultivada por Michael Jackson – a musicalidade e a dança BLACK, alimentou e alimenta nossa criatividade, alma e desejo de liberdade.

O ídolo Michael Jackson tornou-se uma pessoa controversa, suas energias foram dissipadas pelos efeitos da fama e também do racismo. Seu trajeto tornou-se incerto por sucessivos escândalos e assédios midiáticos.

Temos que admitir que os ídolos são pessoas com seus bons e ruins. Nós, os fãs ou espectadores, assistimos a evolução de suas vidas, às vezes perplexos. Carregamos parte de suas histórias em nossas memórias, e, em sentidos imaginários, nos misturamos com eles.

Assim, Michael Jackson, foi e será referência de energias para vencer as barreiras do lugar comum de gerações que buscaram e buscam na musicalidade, as possibilidades de serem visíveis, de serem gente!

Muito cedo, Michael Jackson descansou! Mas nós continuaremos “dançando e cantando” em busca de dias melhores!

Matilde Ribeiro - Doutoranda em Serviço Social. Ministra da igualdade racial (2003-2008)

 
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